[DOCS-RBP] Fw: A Universidade Am eaçada

Lúcia Helena Picin ato Raphael lraphael em fmrp.usp.br
Terça Novembro 17 13:38:07 BRST 2009


---------- Forwarded Message -----------
From: jorge e moreira <cello em fmrp.usp.br> 
To: lraphael em fmrp.usp.br 
Sent: Tue, 17 Nov 2009 12:32:15 -0200 
Subject: A Universidade Ameaçada

Lúcia, favor encaminhe de volta aos docentes, pós-graduandos e interessados em geral, os comentários baseados no texto do Professor Klaus H. Hartfelder (abaixo). Gostei muito dos comentários dele sobre o artigo que não escreví.

A Universidade Ameaçada
Discussão com base no artigo de E Abdalla, LRW Abramo e JC Barata, Tendências Debates, Folha de São Paulo 06/11/2009

Fiquei totalmente satisfeito de receber um comentário ao artigo que captou a atenção dos que se interessam pela ideia de universidade e não pela lúmpen- politiquinha de grupinhos e interessesinhos pessoais que tem governado a USP e muitas das suas escolas, incluindo a nossa (now and then), ao menos na última década.
Concordo com Klaus que o debate amplo sobre os meios e fins da universidade e a sua estrutura hierarquico-política, deveria resultar na formação de um grupo de trabalho permanente envolvendo professores, estudantes e interessados na cultura.
Com respeito a escolha de dirigentes de uma universidade, como executivo- chefe de uma empresa (nos EUA), a diferença que não deve ser mal entendida é que  as universidades mais tradicionais, as da Ivy League, as de elite dos EUA, são grandes empresas, "privadas" somente porque não dependem do orçamento público, porém POSITIVAMENTE SEM FINS LUCRATIVOS, devotadas ao seu próprio crescimento e contribuições para com o gênero humano, que existem como Harvard, desde o século XVII (Harvard foi fundada em 1636), ou Princeton fundada em 1746, ou Berkeley em 1846, ou Rockefeller, em 1901. Nós temos, eventualmente, algumas Universidades Privadas com tradição e sem fins lucrativos, como a PUC ou  Mackenzie em S.Paulo, ou a Universidad del Salvador na Argentina, ou a Javeriana em Colombia. Esclareço isso para não fazermos confusão com as "universidades particulares" como UNIP, UNAERP, BARÃO de MAUA ou UNIququercoisa, etc., que sâo pequenos negocios de familias ou fazendeiros em procura d
 e aplicações lucrativas diferentes, abrindo universidades como se fossem quitandas ou supermercados, segundo o nível procurado.
É verdade, nos EUA, uma vez escolhidos, os dirigentes incluido chefes de departamentos (Chairmans) "exercem o poder por décadas e, assim, direcionam toda a orientação acadêmica de uma universidade, inclusive e principalmente por direcionamento de investimentos." Também é verdade que se a escolha for boa, "i.e. de uma líderança, honesta e de grande visão acadêmica/humanística, este sistema certamente gera os melhores resultados, mas também é aquele que mais pode gerar resultados negativos se o/a escolhido/a não cumpre as expectativas." Mas este último é tão raro, que os resultados são quase invariavelmente positivos, pois face a erros políticos ou comentários infelizes, um dirigente pode ser fácilmente removido, como o vimos em anos recentes com um presidente de Harvard University.
Não quero parecer saudoso nem anacrônico, mas a época da cátedra no Brasil (que eu não viví) foi muito mais sólida que a atual em todos os aspectos éticos possíveis, embora o tipo de ciência que podia ser feita e os recursos eram muito menores. Qualquer um dos sistemas da Alemanha mencionados por Klaus seriam incomparavelmente superiores ao nosso sistema atual por tantas razões que não adianta enumerar.
Mas há um conceito único e universal mencionado pelo Prof. Klaus: "O que torna uma universidade melhor ou pior é o grau do envolvimento dos seus docentes na academia, na busca do conhecimento, para sim e para os estudantes."
Pelas orientações (se podem ser chamadas assim) dos diretivos da USP, e das escolhas dos estudantes de líderes modelo, ao menos nos últimos 10 anos que tenho vivido em Brasil, estamos muito longe de derrubar a politiquinha lúmpen. O poder e o modelo a seguir aqui tem sido o da mediocridade, por ser o mais fácil, independentemente das tendências políticas; a filosofia é ignorada há tempos. O engessamento burocrático centralizado que Klaus menciona, seguramente tem origem na tranqueirice ou incompetência dos dirigentes.

Enfim, embora não fosse o meu candidato, o Professor Grandino Rodas, com suas precisas definições e seu aspecto de padre do clero secular, talvez nos aproxime de alguma forma ética para reconstruir a universidade.

Lembranças,

jorge

Lúcia, favor encaminhe aos docentes do departamento o comentário que segue. Trata-se de um comentário sobre o artigo recentemente publicado na Folha e que, a sugestão do Prof. Jorge Moreira, foi enviado aos docentes:

Comentário sobre
“Universidade ameaçada”
de E Abdalla, LRW Abramo e JC Barata, docentes do IF-USP
publicado em Tendências Debates, Folha de São Paulo 06/11/2009
 

Este artigo de reflexão sobre o papel da universidade, especificamente da USP, na sociedade foi enviado aos docentes por sugestão do Prof. Jorge Moreira.  Lembrando que quando pasmos do lamentável conflito da ocupação de prédios e o confronto da polícia (chamada pela Reitora) contra alunos na USP Campus Butantã é que emergiu uma debate ampla sobre meios e fins da universidade e a sua estrutura hierarquica-política, discussão da qual docentes do nosso departamento tiveram participação ativa e que resultou na formação de um grupo de trabalho que lançou um manifesto. Mergulhando no cotidiano após o conflito, este grupo de trabalho aparentemente não se reuniu mais e, sem dúvida, merece (espero) ser ressucitado. Portanto, veio em boa hora a divulgação do artigo de reflexão dos docentes supramencionados e merece uma análise crítica.
Concordo plenamente com a consideração dos autores de que uma universidade, universidade de verdade, tem que reunir em seu  ambiente as melhores cabeças e, desta forma (implicitamente) constitui uma elite, uma elite intelectual , e que deve oferecer o melhor ensino e realizar pesquisas de ponta (básica e aplicada). Porém, os autores se perdem na argumentação quando focam quase exclusivamente na seleção da liderança administrativa, i.e. de reitor/presidente ou diretores. Será que a questão se resolve já por aqui, e que temos que simplesmente escolher entre três alternativas, i) a seleção por currículo em concurso aberto, ii) o atual “bizantino” processo de eleição de reitor da USP , e iii) aquela que os autores caracterizam como uma de “escolinha de terceiro grau ocupado por alunos e professores dedicados à lumpen-política”? A primeira a alternativa se refere claramente ao sistema praticada no sistema anglo-saxônico, principalmente nas universidades de elite dos EUA, e é esta 
 que os autores propagam como panacéia.  Tal visão restrita necessita de esclarecimentos.
Em primeiro lugar, a escolha de dirigente de uma IES, como praticado nos EUA, se assemelha em quase todos os aspectos à de um de executivo chefe de uma empresa (e é sabido que as universidades de elite das EUA são grandes empresas). Uma vez escolhidos, estes dirigentes exercem um amplo poder por décadas e, assim, direcionam toda a orientação acadêmica de uma universidade, inclusive e principalmente por direcionamento de investimentos. Se a escolha foi boa, i.e. de uma líderança impecável, honesta e de grande visão acadêmica/humanística , este sistema certamente gera os melhores resultados, mas também é aquele que mais pode gerar resultados negativos se o/a escolhido/a não cumpre as expectativas. Como tirar este dirigente do poder? Somente quando rouba (ou compra um barco com verba dos “overheads”, como aconteceu), ou se manifesta de forma desastrosa, “politicamente incorreta” (como também mostram exemplos recentes na história das universidades americanas).
Em segundo lugar, os autores deste artigo aparentemente desconhecem o sistema de escolha do dirigentes praticada na maioria das universidades da Europa continental, principalmente França e Alemanha, países cujas universidades também se acham inseridas entre as melhores nos diversos “rankings”. A maioria destas universidades segue o modelo de escolha de um “primus inter pares” do corpo docente por um período determinado. É este o chamado sistema reitoral. Na Alemanha, cujo sistema administrativo conheço melhor do que o da França, em torno de 70% das universidades adotam este sistema regimental, com gestão reitoral de 4-5 anos. O reitor é escolhido pelo senado, um colegiado similar ao nosso CO, mas com autonomia de escolha , sem aprovação/interferência do governo do Estado . Os demais 30% das universidades optam pelo sistema presidencial, sendo este um sistema mais parecida como o anglo-saxônico, onde o presidente não necessariamente é oriundo do corpo docente, mas pode, inclus
 ive, ser um administrador experiente de empresa ou, mais provável, de governo. Mas diferente do sistema anglo-saxônico, a gestão presidencial também é limitado por tempo e tanto o presidente, quanto o reitor respondem ao senado (legislativa controlando a executiva). E tanto no sistema reitoral quanto no presidencial, o reitor ou presidente têm como conselheiro um chanceler, chefe da administração central, e este chanceler é concursado, e não eleito.

Durante os meus 20 anos como aluno e docente na Universidade de Tübingen, Alemanha,  tive a oportunidade de conhecer os dois sistemas, primeiro o presidencial e depois o reitoral, e vi que não há um melhor nem um pior, em ambos os casos dependia essencialmente da pessoa escolhida. E sendo assim, e voltando ao artigo publicado na Folha, considero que o essencial da questão do caminho que uma universidade quer/deve tomar, não é limitada ou resolvida pelo sistema de escolha de seus dirigentes.  O que torna uma universidade melhor ou pior é o grau do envolvimento dos seus docentes na academia, na busca do conhecimento, para sim e para os alunos. Para tal envolvimento, e neste ponto os autores também acertaram em cheio, as universidades precisam voltar o olhar novamente para as suas verdadeiras atividades fins. Obviamente, a escolha de um reitor que compreende as atividades fins e as tira do engessamento burocrático centralizado facilitaria na busca deste objetivo.
 
Abraços
Klaus

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Jorge E. Moreira Dsc., Associate Professor
Department of Cell and Molecular Biology
University of São Paulo School of Medicine at Ribeirão Preto
Ave. Bandeirantes 3900
14049-900 Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
55(16)3602-3284/3216
FAX: 55(16) 3633-1786

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